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Dia Internacional da Mulher: Quando chamamos ‘jeito’ ao que é competência | Artigo de Opinião

No Dia Internacional da Mulher, escolhemos muitas vezes celebrar conquistas, percursos e exemplos inspiradores. Este ano, partilhamos uma reflexão na primeira pessoa, escrita pela Fabiana Lopes, Head of Business Development da DIG-IN, uma Mulher que lidera diariamente uma equipa que transforma dados dispersos em inteligência estratégica para o setor da restauração em Portugal.

Mais do que uma mensagem comemorativa, este é um convite à atenção. Às palavras. Aos rótulos. À forma como descrevemos competência.


Quando chamamos ‘jeito’ ao que é competência

Podia começar com uma frase bonita sobre empoderamento ou com um simples “feliz Dia da Mulher”, como manda o calendário. Mas hoje apetece-me ir por outro lado. Não é uma crítica nem um desabafo. É apenas uma coisa em que tenho pensado e um convite a repararem nela comigo.

Já repararam nos adjetivos que usamos quando uma mulher faz bem o seu trabalho?

Quando um homem lidera um projeto complexo e entrega resultados, é estratégico, analítico, sólido. Quando uma mulher faz exatamente o mesmo, muitas vezes dizemos que tem jeito, que tem instinto, que é intuitiva. Raramente há má intenção. Mas também não há neutralidade.

“Jeito” soa leve, quase simpático. Sugere talento natural, algo que veio de fábrica. Mas jeito é para hobbies. O que fazemos é trabalho técnico. E trabalho técnico constrói-se.

Constrói-se com método, com repetição, com erro e correção, com horas invisíveis. Dá trabalho. E o que fazemos todos os dias na DIG-IN dá mesmo trabalho.

Trabalhamos num setor com mais de oitenta mil pontos de consumo em Portugal, margens apertadas e dados dispersos por fontes que nunca foram pensadas para comunicar entre si. Transformar esse cenário em inteligência útil exige método, exige estrutura, exige rigor.

Lidero uma equipa que faz isto todos os dias. Pegamos em dados públicos desorganizados e transformamo-los em decisões reais, desde expansão e posicionamento até análise competitiva e oportunidades comerciais concretas. Somos maioritariamente mulheres. Mas isso, para mim, é detalhe.

O que não é detalhe é que ainda há contextos em que a credibilidade técnica não é o ponto de partida. É algo que se conquista nos primeiros minutos. Às vezes a conversa técnica só começa verdadeiramente depois de provarmos, mais do que uma vez, que sabemos do que estamos a falar. Não é explícito. É subtil. E é aí que os adjetivos contam.

Os rótulos moldam perceções. E as perceções moldam oportunidades.

Oiço com frequência que as mulheres têm uma “capacidade relacional especial”, como se fosse um talento compensatório. Mas a inteligência relacional não substitui competência técnica nem visão estratégica, multiplica-as. E não pertence a nenhum género.

Quando um diretor comercial constrói relações ao longo de anos, é estratégico. Quando uma mulher faz o mesmo, tem “jeito com pessoas”. A prática é a mesma. O rótulo é que muda.

A equipa que construímos entrega trabalho que fala por si. Estruturamos mercados, criamos ferramentas, geramos valor mensurável para quem toma decisões no consumo fora de casa em Portugal. Talvez o melhor elogio que nos possam fazer seja simples: falem do nosso trabalho com precisão. Sem suavizar. Sem romantizar. Sem o “e ainda por cima” que às vezes aparece quase sem darmos conta.

Este texto não é contra ninguém. É um convite a prestar atenção. Da próxima vez que descreverem o trabalho de uma mulher, numa reunião, numa avaliação ou numa conversa informal, reparem nas palavras que escolhem. Seriam as mesmas se fosse um homem?

Amanhã voltaremos a fazer o que fazemos todos os dias, estruturar dados, analisar mercados e transformar informação dispersa em decisões melhores. O nosso trabalho não muda por ser 8 de março, mas a conversa à volta dele pode mudar.

E sim, o Dia da Mulher continua a fazer sentido enquanto estas diferenças existirem. Enquanto as mulheres continuarem a ganhar menos, a ter menos acesso a determinadas posições e, tantas vezes, a precisar de provar um pouco mais para que a conversa técnica comece no mesmo ponto.

Hoje, na DIG-IN, falo de um lugar de privilégio. Não me posso queixar. Sei o que é estar num contexto onde a competência é assumida e também sei o que é estar noutro onde precisa de ser demonstrada mais do que uma vez. É precisamente por isso que sei que as palavras contam.

Celebrar é importante. Mas o que realmente muda as coisas é deixarmos de suavizar o mérito. A forma como falamos de competência também é uma forma de a medir.


Conclusão

Num setor que está cada vez mais orientado por dados, rigor e decisões estratégicas, a precisão importa, tanto nas métricas, como nas palavras.

No Dia Internacional da Mulher, mais do que celebrar, vale a pena refletir. Se a competência é técnica, estratégica e construída com método, então deve ser descrita como tal. Sem diminutivos. Sem suavizações. Sem rótulos que parecem elogios mas reduzem exigência.

Na DIG-IN, acreditamos em dados claros, decisões objetivas e reconhecimento proporcional ao impacto. Talvez o próximo passo seja aplicar esse mesmo rigor à forma como falamos sobre quem faz o trabalho.

Porque igualdade também começa na linguagem.

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